domingo, 15 de julho de 2012

On The Santiago`s Road


Por João Ricardo

O que você comprou com seu primeiro salário? Lembra? Não lembro exatamente, mas com um dos primeiros resolvi me presentear. Sensação altamente satisfatória que continuo realizando até os dias de hoje. O presente em questão era bem simples e deve ter custado uns R$15,00 ou R$20,00. Meio por acaso entrei num sebo no centro da cidade e vasculhei um pouquinho sem muita vontade. Isso porque defendo a idéia de que coisas usadas, obviamente, fizeram parte de outras vidas, outras histórias e carregam esse passado desconhecido que me preocupa um pouco. Não que eu tenha assistido a muitos filmes de terror ou acredite que algumas coisas pertenceram a pessoas mortas ou, ainda, que fizeram parte de rituais... Vai ver é tudo isso mesmo e um pouco de loucura. Mas o fato é que acabei levando um livrinho.
O título é “Caminhos de Santiago”, de Cádmo Soares Gomes e mesmo com relutância em comprar livro de sebo, não pensei duas vezes e resgatei esse da prateleira. Única exceção, pois nunca voltei a comprar outro livro usado, o que o torna um livro especial. Outra razão pra tê-lo como especial ou, exclusivo, digamos assim, é que várias de suas páginas trazem anotações a lápis. Uma letra quase ilegível que eu penso ser masculina. Nas partes que consigo ler parecem comentários, como se fossem pra uma pesquisa. Não acho que o antigo dono tenha feito o caminho. Mas de toda maneira o livro possui uma trajetória anterior intrigante.



O autor narra sua experiência como peregrino no caminho de Santiago de Compostela, como o nome já sugere. Eu conhecia um pouco do assunto, mas através da leitura fiquei fascinado. O caminho é uma rota de peregrinação muito antiga que leva até o túmulo do apóstolo Tiago.  Segundo a tradição Tiago evangelizou o que hoje conhecemos como Espanha, sendo por isso perseguido e martirizado como outros cristãos da época. O local da sua sepultura caiu em esquecimento com o passar do tempo. Por volta do século IX, um eremita da região, chamado Pelágio teve a visão de uma chuva de estrelas caindo sobre um ponto no campo, seguida de uma voz que pedia para cavar. Ali foram encontrados os restos mortais do apóstolo e o local passou a ser conhecido como Compostela que significa Campo das Estrelas. Desde então peregrinos caminham até o túmulo que se encontra dentro da catedral erguida há séculos.
Gosto desse trecho: “Faz-se o caminho de Santiago por razões religiosas, espirituais, turísticas, culturais ou mesmo nenhuma. Ainda que se parta sem saber por que, há quem diga que a razão vai sendo descoberta durante o percurso. Atribui-se ao caminho uma força quase mágica. O resultado de longa caminhada às vezes em solidão, às vezes em companhia, as situações pelas quais se passa e a introspecção que ele proporciona conduzem à aquisição de uma visão de si mesmo que certamente pode ser alcançada por qualquer outro meio, mas que o caminho, acredita-se, consegue acelerar”.



O livro é um diário de bordo, de leitura bem simples. O leitor consegue acompanhar e se envolver com a jornada do caminhante, consegue viajar junto. Ele mostra os mapas e relata sua passagem de cidade a cidade, as pessoas que conhece, as tradições que lhe contam; cruza florestas, passa por subidas e descidas, descampados, enfrenta a chuva, o frio, o calor, o cansaço. Descobri com o livro que existem quatro caminhos e o Cádmo passou por todos. O caminho que parte da França e cruza todo o norte da Espanha – imagine a paisagem e a aventura; o caminho Aragonês que também tem origem na fronteira com a França e se torna um só Caminho Francês a partir de um determinado ponto; o Caminho do Norte é uma rota diferente, paralela aos outros dois caminhos e, por fim, há o caminho Português que tem início no Porto e permanece no país quase que completamente, só passando a ser espanhol bem perto de Compostela.

 
Guardei três lembranças da leitura desse livro, embora todo ele seja muito bom. A primeira é a fonte de vinho que jorra em uma das cidades, a segunda é o Monte do Gozo, lugar onde, após toda a caminhada, se pode avistar as torres da Catedral e as pessoas fazem a descida cantando, conforme a tradição e a terceira é o Cabo Finisterra, último pedaço de Europa antes do Oceano Atlântico. Percorrer o Caminho é um dos meus sonhos, mas eu não o faria sozinho, como dizem que é o ideal. Costumo achar que essa é uma viagem pra ser feita com grandes amigos. Creio que a inscrição que há na fonte do vinho concorda comigo: “Peregrino! Se queres chegar a Santiago com força e vitalidade, bebe um gole deste vinho e brinda à Felicidade”.

Eu tive que subir, lá no alto, para ver, energia Racional (...).

Por Nika Chaves
Dica: Leia isto ouvindo Rational Culture (Tim Maia)


9.Rational Culture by rafiuds


Uma das coisas que torna um livro, um disco, uma banda ou qualquer outra coisa interessante, pra mim, é a história por trás do processo criativo, o que fez com que o artista transformasse a partir de suas experiências ou não, o produto de sua própria arte. Pensando nisso e seguindo uma sugestão muito especial, escolhi falar um pouco de um dos discos mais raros e psicodélicos da Mpb, Racional Vol.1 e Vol.2, gravado por um dos grandes interpretes da Soul Music Brasileira. Sim, estou falando dele, Tim Maia. 
  
 Tim morou com apenas 17 anos em Nova York, onde obteve grande influência da Black  Music. Ficou por lá durante 4 anos, até ser deportado por ter sido pego fumando maconha em um carro roubado.  As drogas e a fama de furão, recebida por desmarcar shows em cima da hora, foram um dos grandes problemas enfrentados por Tim, numa carreira cheia de altos e baixos. Nos anos 70, nosso Show Man estava no auge e dividia a cena musical com bandas como Mutantes, Tom Zé e o povo da Jovem Guarda. 

Mas a história do Racional começa em 1974, quando Tim se envolve com um grupo religioso conhecido como Cultura Racional, que misturava misticismo com ufologia, na crença de que os seres humanos precisam se reconectar a uma forma elementar de energia, através de um livro chamado Universo em Desencanto. Nesse período Tim deixou de usar drogas, ficou limpo, passou a vestir-se de branco e fez dois registros devocionais e meio que autobiográficos, o que veio a ser um dos trabalhos em que se revela uma grande performance da sua voz, de arrepiar!

Sua gravadora na época era a Polydor. Quando Tim apresentou o trabalho, mandaram-no de volta para casa, para rever suas músicas. Temperamental e determinado, lançou o disco em sua própria gravadora chamada SEROMA, (o primeiro selo independente no Brasil) que são as iniciais de seu nome de batismo Sebastião Rodrigues Maia.  Em 1976, separou-se do culto e tirou os exemplares de circulação, tornando-os ainda mais raros, era como se não tivessem existido. Em uma entrevista para o Jô Soares, em 1989, declarou que o livro foi uma das grandes roubadas em sua vida. Sobre o disco, Tim não liberava os direitos para a reprodução e nem falava sobre o assunto.
 Mesmo depois de seu falecimento em 1998, houve uma extensa disputa judicial entre seus herdeiros. Somente em 2005, os direitos foram liberados pelo filho Carmelo Maia, e lançados pela gravadora Trama em 2006, que recuperou as gravações a partir de LP’s. Fora as divulgações sobre a leitura do livro em quase todas as músicas, a voz de Tim, os músicos e a energia do Soul que estão presentes em sua maioria, tornam o cd especial. No caminho do Bem e Imunização Racional/Uh que Beleza, fizeram parte da trilha dos filmes Cidade de Deus e Durval Discos. Particularmente amo todo o disco e consegui baixá-lo pela internet, o cd está na lista dos mais pirateados da rede. A parte instrumental conta com a participação do músico guitarrista, Paulinho Guitarra, grande instrumentista brasileiro.

A revista Rolling Stone, classificou o álbum na 17º posição, na lista dos 100 melhores álbuns da música brasileira. Do disco, minhas músicas preferidas são... Bem, que difícil, vou ficar com Rational Culture (que dura maravilhosos 12 minutos, com solos lindos de guitarra e uma levada Soul de fazer seu corpo seguir a música quase que no automático), Imunização Racional e Bom Senso, (que me fazem lembrar dos fins de tarde de viola com minha mãe).  E você já ouviu o Racional? Ouve lá e sinta a energia.