Por João Ricardo
O que você comprou com seu primeiro salário?
Lembra? Não lembro exatamente, mas com um dos primeiros resolvi me presentear.
Sensação altamente satisfatória que continuo realizando até os dias de hoje. O
presente em questão era bem simples e deve ter custado uns R$15,00 ou R$20,00.
Meio por acaso entrei num sebo no centro da cidade e vasculhei um pouquinho sem
muita vontade. Isso porque defendo a idéia de que coisas usadas, obviamente,
fizeram parte de outras vidas, outras histórias e carregam esse passado
desconhecido que me preocupa um pouco. Não que eu tenha assistido a muitos
filmes de terror ou acredite que algumas coisas pertenceram a pessoas mortas
ou, ainda, que fizeram parte de rituais... Vai ver é tudo isso mesmo e um pouco
de loucura. Mas o fato é que acabei levando um livrinho.
O título é “Caminhos de Santiago”, de Cádmo Soares
Gomes e mesmo com relutância em comprar livro de sebo, não pensei duas vezes e
resgatei esse da prateleira. Única exceção, pois nunca voltei a comprar outro
livro usado, o que o torna um livro especial. Outra razão pra tê-lo como
especial ou, exclusivo, digamos assim, é que várias de suas páginas trazem
anotações a lápis. Uma letra quase ilegível que eu penso ser masculina. Nas
partes que consigo ler parecem comentários, como se fossem pra uma pesquisa.
Não acho que o antigo dono tenha feito o caminho. Mas de toda maneira o livro
possui uma trajetória anterior intrigante.
O autor narra sua experiência como peregrino no
caminho de Santiago de Compostela, como o nome já sugere. Eu conhecia um pouco
do assunto, mas através da leitura fiquei fascinado. O caminho é uma rota de
peregrinação muito antiga que leva até o túmulo do apóstolo Tiago. Segundo a tradição Tiago evangelizou o que
hoje conhecemos como Espanha, sendo por isso perseguido e martirizado como
outros cristãos da época. O local da sua sepultura caiu em esquecimento com o
passar do tempo. Por volta do século IX, um eremita da região, chamado Pelágio
teve a visão de uma chuva de estrelas caindo sobre um ponto no campo, seguida
de uma voz que pedia para cavar. Ali foram encontrados os restos mortais do
apóstolo e o local passou a ser conhecido como Compostela que significa Campo das Estrelas. Desde então
peregrinos caminham até o túmulo que se encontra dentro da catedral erguida há
séculos.
Gosto desse trecho: “Faz-se o caminho de Santiago
por razões religiosas, espirituais, turísticas, culturais ou mesmo nenhuma.
Ainda que se parta sem saber por que, há quem diga que a razão vai sendo
descoberta durante o percurso. Atribui-se ao caminho uma força quase mágica. O
resultado de longa caminhada às vezes em solidão, às vezes em companhia, as
situações pelas quais se passa e a introspecção que ele proporciona conduzem à
aquisição de uma visão de si mesmo que certamente pode ser alcançada por
qualquer outro meio, mas que o caminho, acredita-se, consegue acelerar”.
O livro é um diário de bordo, de leitura bem
simples. O leitor consegue acompanhar e se envolver com a jornada do
caminhante, consegue viajar junto. Ele mostra os mapas e relata sua passagem de
cidade a cidade, as pessoas que conhece, as tradições que lhe contam; cruza florestas,
passa por subidas e descidas, descampados, enfrenta a chuva, o frio, o calor, o
cansaço. Descobri com o livro que existem quatro caminhos e o Cádmo passou por
todos. O caminho que parte da França e cruza todo o norte da Espanha – imagine
a paisagem e a aventura; o caminho Aragonês que também tem origem na fronteira
com a França e se torna um só Caminho Francês a partir de um determinado ponto;
o Caminho do Norte é uma rota diferente, paralela aos outros dois caminhos e,
por fim, há o caminho Português que tem início no Porto e permanece no país
quase que completamente, só passando a ser espanhol bem perto de Compostela.
Guardei três lembranças da leitura desse livro,
embora todo ele seja muito bom. A primeira é a fonte de vinho que jorra em uma
das cidades, a segunda é o Monte do Gozo, lugar onde, após toda a caminhada, se
pode avistar as torres da Catedral e as pessoas fazem a descida cantando, conforme
a tradição e a terceira é o Cabo Finisterra, último pedaço de Europa antes do
Oceano Atlântico. Percorrer o Caminho é um dos meus sonhos, mas eu não o faria
sozinho, como dizem que é o ideal. Costumo achar que essa é uma viagem pra ser
feita com grandes amigos. Creio que a inscrição que há na fonte do vinho
concorda comigo: “Peregrino! Se queres chegar a Santiago com força e
vitalidade, bebe um gole deste vinho e brinda à Felicidade”.



A primeira vez que “ouvi” falar do Caminho de Santiago, foi lendo Diário de um Mago, do Paulo Coelho. Fiquei entusiasmada com a idéia! Entusiasmo este que sinto todas as vezes que o assunto surge. Não sei se um dia eu farei o Caminho, esse de Santiago, mas já percorri vários outros, já cruzei com peregrinos e demônios, já andei sozinha e acompanhada, já pensei em desistir, mas continuei... Adorei seu texto, adorei o tema, adorei os trechos escolhidos. Pra contribuir, finalizo com uma frase do livro “Diário de um Mago”, talvez não seja a mais fantástica, mas é uma das que mais me intrigam. "As pessoas sempre chegam na hora exata nos lugares onde estão sendo esperadas."
ResponderExcluirGisa Almeida.
Que citação linda, muito profunda.
ExcluirAté me emocionei.
ExcluirHahahahahaha.....
ExcluirBem tal qual.
ExcluirCaramba, fiquei até com vontade de fazer esse caminho. Confesso, que vizualizei-me o fazendo sozinho. E claro, com um cajado e um moleskine. Ah! E uma Lomo, hãn? =] O poder mágico desse caminho deve ser incrível. Acho que a vontade de alguns de entrar em contato com algo místico e até mesmo se descobrir, deve ser um dos grandes impulsos da procura por esse caminho. Ou pelo menos a minha.
ResponderExcluirps: não tenho nenhuma citação. ;)