sábado, 9 de junho de 2012

Livro proibido



Por João Ricardo Campos


Antes do meu post propriamente dito, quero agradecer à Nika pelo convite pra participar do blog. Espero corresponder às expectativas. Pra estréia escolhi falar sobre um livro. Então, vamos lá!

Se eu fosse fazer uma lista dos livros que mudaram minha vida, ou ao menos mudaram meu jeito de pensar, Diários da Susan Sontag estaria entre os primeiros. Eu trabalhei numa livraria e uma das minhas tarefas era receber os novos livros e levá-los até as prateleiras pra venda. Estava em constante contato com as novidades. Um dia os Diários vieram parar na minha mão, com aquela foto da Susan na capa que te encara, misteriosa com o cigarro entre os dedos, toda misturada em preto e branco com o fundo. Tinha cara de livro proibido, daqueles com veneninho nas páginas que nem na Idade Média. Esse caráter que eu atribuí a ele só aumentou quando li a primeira entrada: “... eu acredito que não existe nenhum deus pessoal nem vida após a morte...”. Daí fechei-o e não quis mais conversa. Repeli mesmo com total preconceito.
Pois bem, vira e mexe eu pegava o livro de novo e folheava num misto de medo e dúvida. Numa dessas ocasiões parei na entrada que dizia: “Abri um volume dos contos de Kafka; numa página de A metamorfose. Foi como uma pancada física, o caráter absoluto da sua prosa, pura realidade nada forçada nem obscura. Eu o admiro acima de todos os outros escritores! Ao lado dele, Joyce é tão tolo, Gide é tão – sim- doce, Mann é tão oco + bombástico. Só Proust é tão interessante – quase...” Diante disso me desembrulhei daquele manto de preconceito e resolvi levá-lo pra casa, porque, no mínimo, seria interessante descobrir o que mais essa mulher tinha pra contar.
Passei longas horas na companhia de Susan. Lia até no ônibus, coisa que não gosto de fazer. O livro proibido me encantava. Impressionante sua forma de escrever tão adulta e inteligente com apenas 15 anos, no inicio dos diários – marcante a parte onde ela evidencia seu homossexualismo e refere-se a si mesmo como “renascida”. Impressionante também as listas de livros, as citações, filmes, os comentários (Susan leu Memórias Póstumas de Braz Cubas e, mais tarde prefaciou uma tradução da obra pra o inglês). Essa avidez por cultura me comoveu e influenciou.
Entre uma entrada e outra há vários espaços de tempo, ela não era freqüente. Entendo que os diários serviam mais como uma catarse do que um registro, embora existam as partes chatas onde ela relata cenas do cotidiano, lista de afazeres, pequenos propósitos.  Num dos seus aniversários ela escreve algo sobre Roma antiga, um  trecho breve. Não há notas de rodapé para essa entrada e nunca saberemos qual era o simbolismo, o que ela quis dizer.
Susan era americana de origem judaica. Escreveu muitos ensaios e alguns romances. Era influente na cena intelectual do seu país e mantinha diários desde a década de 40. Nunca revelou seu conteúdo a ninguém. Viveu seus últimos anos de vida ao lado de Annie Leibovitz, (querida fotógrafa que também merece um post). Seu filho único, David Rieff decidiu organizar e publicar os diários. Muita coragem da parte dele escancarar a vida da mãe assim dessa forma, mas o próprio explica no prefácio que se ele não fizesse certamente outra pessoa faria.
Todo diário é meio macabro. Faz reviver o autor. Por muitas vezes pareceu que a própria Susan estivesse me contando sua história, tivesse me enviado uma carta. Senti sempre uma grande afinidade com ela, após a primeira impressão negativa. Esse tipo de experiência faz com que você se dê conta da nobreza de um livro, do seu poder. O que a Susan escreveu durante anos veio parar na minha mão, atravessou o tempo e o oceano e me guiou de volta àqueles dias e àquelas sensações. Aqui me despeço dessa primeira participação com uma de suas frases:

“Eu rego minha mente branca com livros”.

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