Por João Ricardo
Eu sempre quis ler algo do Gabriel García Márquez,
para os íntimos, Gabo. Os títulos dele me chamam atenção, são tão belos: Cem Anos de Solidão, O Outono do Patriarca,
Doze Contos Peregrinos, A Má Hora (O Veneno da Madrugada) e por aí vai. Conheci
uma ou outra pessoa que não gostou da escrita dele, ainda que o cara tenha
ganhado, em 1982, o Nobel de Literatura. Enfim, é sempre bom assistir ou ler
pra formar sua opinião (isso eu aprendi com a Nika).
Dando início ao desbravamento desse mestre,
escolhi um de título bonito também, Do
Amor e Outros Demônios. O Gabo me convenceu logo de cara no texto que abre
o romance, onde ele explica de onde veio a inspiração. Em 1949, ainda
jornalista, num dia parado de acontecimentos, foi enviado para cobrir os
trabalhos num convento histórico que seria convertido em hotel. Chegando lá
estavam removendo as ossadas das criptas. García Marquez ficou impressionado ao
entrar na capela e ver os restos das pessoas enfileiradas no chão. Mas o mais
espantoso ainda estava por vir. Ele mesmo pode dizer:
“No terceiro nicho do altar-mor, do lado do
Evangelho, é que estava a notícia. A lápide saltou em pedaços ao primeiro golpe
da picareta, e uma cabeleira viva, cor de cobre intensa, se espalhou para fora
da cripta. O mestre de obras quis retirá-la inteira, com ajuda de seus
operários, e quanto mais a puxavam, mais comprida e abundante parecia, até que
saíram os últimos fios ainda preso a um crânio de menina (...) Estendida no
chão, a cabeleira esplêndida media vinte e dois metros e onze centímetros”. No
mesmo momento ele lembrou que sua avó contava a lenda de uma marquesinha morta
no Caribe que tinha fama de milagreira e um cabelo comprido como a calda de um vestido. Desse fato e da sua mente altamente
criativa que mistura o real e o extraordinário nasceu o romance.
A história contada por ele se passa na Colômbia
ainda colônia espanhola. A marquesa é uma menina de cabeleira longa, por causa
de uma promessa, que vive no meio dos escravos e alheia aos pais. Há um surto
de raiva na cidade devido à presença de cães doentes que saem atacando as
pessoas. Um deles ataca a criança que não morre, mas depois de um tempo passa a
apresentar um comportamento estranho, tido pela Igreja como demoníaco. Com medo da Inquisição e desesperado para salvar
a filha, o marquês a leva, como sugestão do bispo, ao convento para que seja
tratada. O padre responsável pelos ritos se apaixona pela garota, ele muito
mais velho que ela. E, não vou contar tudo, claro, mas no decorrer das páginas
você se depara com feitiços, personagens malditos, tristes, solitários, um
manicômio, um eclipse, uma historia de amizade e amor.
Outro motivo que me fez ler o livro é que minha
avó também contava histórias. A gente ficava na frente da rede dela, escutando,
muitas vezes, muitas tardes. Lendas que passaram de pessoa pra pessoa até
chegar nela e historias que ela lia nos livros. Seres fantásticos, versos
mágicos, amores proibidos, gigantes, fantasmas, coisas do mato e do sertão. Nunca
mais tornei a ouvir de outra pessoa do jeito que ela contava. Arrependo-me de
não ter feito que nem o Gabo. Agora o tempo passou e não lembro os começos, os
fins, tudo parece um sonho distante feito de imagens que eu criei quando ouvia.
Mas vamos lá, sem tristeza, a minha vózinha que era Luíza com z, fez parte da
confraria das avós fantásticas, como a avó do García Márquez com certeza e eu
tenho muito orgulho disso.
Ps: Também existe o filme baseado no romance. Eu
ainda não assisti, mas se alguém já teve a oportunidade, conta pra gente, vai.


Nenhum comentário:
Postar um comentário