Durante
três semanas participei da Oficina de Cinema Digital que ocorreu na Casa do
Cinema, oferecida pela Secretaria de Cultura do Amazonas. De segunda a sexta,
perto das 14 horas, debaixo do sol do fim de julho, passava pelo trecho mais
bonito da Rua Monsenhor Coutinho até chegar à Casa do Cinema. Encantei-me por
essa rua. Todos os dias fazia passos lentos ao cruzá-la e tentava contemplar o
máximo das fachadas antigas e abandonadas e o telhado de árvores que lembra um
túnel tristonho. Há uma solenidade, um
mistério de passado morto nas casas, na rua. Sinto um desespero por saber quem
morou naquelas casas e quem as abandonou, ali, como testemunhas silenciosas do
tempo que passa. E o que elas viram, dia após dia?
A
Casa do Cinema é um sobrado restaurado, decorado com cartazes e fotos antigas,
muito bonito, na R. Ferreira Pena, onde se pode ver mais exemplos da
arquitetura antiga. Na entrada há uma fonte seca e um conjunto de azulejos com
a inscrição “Solar Georgete”. Vejo-a como um cenário para fotografias. Dentro o
pé direito tão alto guia o olhar para o teto de madeira. E mais uma vez meu
desespero em pensar que histórias, que tragédias aconteceram lá. Uma casa nunca
é só uma casa.
As
aulas aconteciam nas salas do porão, com, aproximadamente, vinte pessoas. Algumas
já tinham experiência e outras, como eu, totalmente leigas apreciadoras do
cinema. O objetivo do curso era a produção dos curtas baseados nos nossos
próprios roteiros. Confesso que não foi fácil criar e pensar em um roteiro.
Todas as minhas idéias pareciam bobas. Enfim, quando finalizei, percebi o
quanto fiquei empolgado com a idéia de escrever histórias só minhas e,
possivelmente, dar vida e movimento a elas.
Uma
aula em especial é a minha predileta, a que falamos sobre equipe técnica. Pude
conhecer e entender a importância e as funções dos profissionais que trabalham
atrás das câmeras, os caras que fazem a magia acontecer. Após isso, dividimos a
turma em duas equipes e definimos o papel dos membros da equipe, cada equipe
responsável pela produção de um curta. Gostei das atribuições do diretor de
fotografia, mas preferi ficar com a direção de arte. As equipes elegeram seus
roteiros e as aulas seguintes foram nossas reuniões de pré-produção e
exercícios com a câmera.
A
minha maior dificuldade não estava voltada para algum elemento do filme em si,
como era de se esperar, mas à equipe que formamos. As nossas reuniões eram
muito vagas e, não querendo ser chato, fiquei incomodado com alguns membros sem
iniciativa ou que pareciam não querer estar ali e colaborar. Ainda por cima o
roteiro escolhido, embora fosse uma história bem curta e bonita, apresentava
alguns obstáculos como atores e locações e nada ficava decidido firmemente nas
reuniões. Devido a tudo isso e porque já me sentia frustrado, decidi abandonar
as aulas na segunda semana, não sem pesar. Porém, providencialmente, no mesmo
dia a maioria decidiu trocar o roteiro vencedor pelo meu, que foi todo pensado
para ser feito sem muitos recursos e com locações fáceis. Isso me tranquilizou
e me levou a continuar, não por eu ter sido escolhido, mas pela equipe ter
eliminado muitos entraves com essa atitude.
Percebi
que a alma da coisa está na equipe. Tudo anda se cada um carregar uma parte.
Não adianta ter um roteiro magnífico e bons equipamentos se não há
entrosamento, profissionalismo no grupo e, claro, vontade de fazer acontecer.
Mas críticas à parte, chegamos ao fim da terceira semana com a missão de
transformar algumas folhas de papel em imagem e som. A minha história se chama
“A folga” e fala sobre o tempo, como o aproveitamos e se realmente o
aproveitamos. Mostra um dia de descanso na vida de um cara que trabalha muito e
não vê a hora de fazer todas as coisas que planejou para o tempo livre, mas
acaba não fazendo nada a não ser dormir e ver TV. Requer apenas duas locações e
três atores que saíram do nosso próprio grupo.
Para
as cenas do escritório utilizamos uma das salas da Casa do Cinema. Como diretor
de arte fiquei responsável pelos objetos da cena, pelo cenário e pelo figurino
dos atores. As filmagens tiveram início às 15 horas e se estenderam até umas 19
horas. Já estava escuro e tivemos que fazer uma luz diurna. Esse dia foi muito
cansativo. Repetimos exaustivamente algumas cenas e, como eu também era o
continuísta, o cara que fica com a claquete, passei o dia pra lá e prá cá, a
cada mudança de posição da câmera, alterando os dados. Apesar do cansaço é
muito legal falar, por exemplo, “Cena 1, tomada 2, take 3” e bater a claquete
pro diretor comandar a ação.
No
segundo dia os trabalhos aconteceram no Educandos, na casa do diretor de
fotografia que, diga-se de passagem, tem uma vista do Rio Negro de dar inveja. A
cena toda era com o protagonista somente, o que facilitou bastante a
administração das tarefas. A fotografia esteve mais presente, assim como a
dificuldade de elaborar a luz do amanhecer e a luz noturna, bem no meio da
tarde manauara. Nosso ator, o Mário Cóvas (sim, ele tem nome de político), é
bem desenvolto e se mostrou muito à vontade na realização do papel, o que para
o diretor, deve ter sido agradável. A princípio ele seria o assistente de
direção, mas, sem dúvida, fez um ótimo trabalho diante das câmeras. Finalizamos
esse dia com sensação de alívio, o que me faz pensar que, nas produções, sejam
de TV ou de cinema, grandes ou pequenas, a sensação de quem faz, quando está
tudo pronto, provavelmente é de auto-realização e felicidade. Ainda não posso
afirmar ou negar isso, pois o curta está em processo de edição. Faço questão de
convidar os senhores para a exibição, assim que tivermos uma data definida.
Essa
foi uma experiência marcante, embora tudo tenha se dado no espaço tão curto de
três semanas. É uma alegria fazer parte e conhecer as pessoas que se dedicam a
esse trabalho em Manaus. Quero agradecer, especialmente, ao Bruno Morais e
Thiago Pereira, nossos mestres, pela generosidade em compartilhar o
conhecimento e nos trazer pra perto desse universo sedutor de “luz, câmera,
ação”.
Dica: leia isto ouvindo Young Blood
- (The Naked and Famous)
Se o gênio da
lâmpada mágica, aquele mesmo, o azul de Alladin, aparecesse pra mim agora,
orran, parece lesera, mas pediria um scanner, ahaha... Sério, ando com uma
vontade doida quase que azedando, pra colocar minhas fotos P&B da action no Marilyn. Mas num vai tardar, prometo
colocar tudo na íntegra, vou criar um flickr e é claro, antes disso, postar
algumas fotos no blog. Enquanto a expectativa só cresce, dou a dica da música
acima, Young Blood – The Naked and Famous,
com o tema “músicas para viagem” ou “músicas
para pegar a estrada”.
Caso você
tenha achado a canção familiar, saiba que ela é muito comum nos programas de
viagens do Multishow, e se você é uma daquelas pessoas que adoram esses
programas, “bate um 10”. A escolha foi intencional, pra gente entrar mesmo no
clima de viagem. Com o mês de Agosto acabando e Setembro chegando com tudo,
feriadão, dias de folga, pausa pra descanso. Nada como um feriado pra renovar
as energias. E você? Já se programou ou pensou no que vai fazer? Bem, se
meu bom Deus permitir, vou ver o mar, e quem sabe, role até um postsobre essa Trip. Além das coisas básicas que
não podemos esquecer, calcinhas, escova de dente e a inseparável máquina fotográfica. Sempre é bom selecionar aquelas músicas
ma-ra-vi-lho-sas no Pen Drive ou no aparelho mp3 pra marcar a viagem.
Foi pensando
nisso que abri um espaço para você, leitor do Marilyn, dar dicas de músicas que
poderíamos levar numa viagem, então, por favor, queira proporcionar não só a
mim, mais a todas as pessoas que possivelmente também vão viajar e ler o blog, curtir
um som diferente. Espero dicas de músicas empolgantes e com muito alto-astral,
aquelas especiais que você gosta de ouvir, as que te acompanham quando você
pega a estrada, aquela banda que não pode faltar numa Trip ou que você anda
ouvindo que está fazendo a sua cabeça. Aguardo ansiosa e entusiasmada por suas
dicas. Agora é com você, beijos!!
Dica: Leia
isto ouvindo Unknown Brother (The Black
Keys)
Por Nika Chaves
Filmes que deixam no espectador a sensação de querer viver
mais, de viajar, ter experiências, mesmo depois que o filme acaba, e mais ainda, te fazem refletir, são os
que realmente valem a pena. Na Estrada; me deixou com todas essas sensações.
Inspirado no romance homônimo On The Road – Pé na Estrada, de Jack Kerouac, o
filme relata experiências vividas por Sal Paradise ao lado de seu amigo Dean Moriarty, viajando
de uma ponta a outra dos Estados Unidos. Kerouac, juntamente com seus amigos
Allen Ginsberg e Willian S. Burroughs, fizeram parte da geração Beat, (final da
década de 50), de jovens em busca de experiências através da literatura, do sexo
e do uso de drogas. Uma geração boêmia, que influenciou posteriormente a
geração hippie dos anos 60. O filme traz na direção o brasileiro Walter Salles;
a produção é de Francis Ford Copolla.
No longa, o
protagonista Sal (Sam Riley) - que por algumas vezes me deixou a impressão de
estar olhando Leonardo Di Caprio - vive um jovem escritor que mora em Nova York,
perde o paie não vê mais inspiração no mundo em
que vive e nem na vida que leva. Através de um amigo, ele conhece o charmoso
Dean Moriarty (Garret Headlund) e sua mulher, Marylou (Kristen Stewart), de
apenas 16 anos, recém-chegados a Nova York e cheios de experiências a partilhar,
tudo do que um jovem escritor precisa. Instigado pelo lado “vida louca” de Dean
- e seus vícios em drogas, benzendrina, álcool e sexo - Sal passará por
experiências que irão mudar o seu jeito de ver o mundo e as coisas ao seu
redor, escrevendo sobre tudo o que vê e o que vivencia. E essa viagem foi feita por Kerouac e seu amigo Neal Cassidy, e mais
tarde viria a se tornar o livro On the Road – Pé na Estrada.
A composição das imagens é linda, paisagens dignas de cartão-postal,
e descreve o universo das drogas, do sexo liberal, da nudez, da
homossexualidade, sem se tornar apelativo ou vulgar. Pelo contrário, o filme
mostra claramente as reações de seus protagonistas e o olhar dos mesmos sobre tais
experiências e prováveis conseqüências. Outro destaque é a ótima trilha sonora. Confesso que senti um pouco
de tontura nos takes onde a câmera acompanha
o movimento das caminhadas pela estrada. O filme é longo, o que só percebi ao
olhar para o relógio no fim da sessão. As atuações e participações especiais
estão um show à parte. Você verá nossa queridinha Alice Braga, Viggo Mortensen,
Amy Adams e Kirsten Dunst, todos bem ambientados à época.
As curiosidades referentes ao filme e ao livro são várias,
mas listei somente uma para cada. Se, depois do filme, você tiver interesse em
ler o livro, saiba que muitas modificações foram feitas no texto, que sofreu diversas alterações das editoras por estar repleto de situações consideradas “fortes” pra época.
Kerouac escreveu o livro em três semanas, e praticamente não há pausas. Pra
felicidade dos que gostam dos originais, há uma versão do manuscrito, que pode
ser encontrada pela internet na livraria Cultura. Em relação ao filme, uma das
dificuldades para ser rodado, foi encontrar um bom roteiro, Salles contou com a ajuda de um velho amigo,
José Rivera, o mesmo roteirista de Central do Brasil. Minha cena favorita: Sam, Dean e Marylou estão
com mais dois caronistas no carro, de volta para São Francisco. É fim de tarde
e a fotografia está quase em Redscale.
A luz é incrível e Kristen consegue realmente emocionar com sua atuação. Um dos
caronistas começa a cantar um folk... É
impossível resistir a um sentimento de estrada, solidão, e a saudade de voltar
pra casa.
Na estrada é um filme sobre viver, correr riscos, viajar
(em várias conotações), amores e amizades. Vale muito a pena uma ida ao cinema,
ainda mais se você não tem problemas em fugir de fórmulas repetidas. Se você
gostar e quiser mais filmes sobre o mesmo tema, recomendo também Diários de
Motocicleta e Na Natureza Selvagem (esse último é emocionante). Todos foram
inspirados em diários, que mais tarde tornaram-se livros. Finalizo com um
trecho lindo de Kerouac: “Para mim,
pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar,
loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que
nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como
fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações."
Ficha técnica
ORIGINAL: On the Road – Na estrada
LIVRO: On the Road – Pé na Estrada – Jack Kerouac
DIRETOR: Walter Salles
ROTEIRISTA: José Rivera
ELENCO:
Sam Riley, Garret Headlund, Kristen Stewart, Alice Braga, Kirsten Dusnt, Amy
Adams, Viggo Mortensen.