Por João Ricardo
A
minha maior dificuldade não estava voltada para algum elemento do filme em si,
como era de se esperar, mas à equipe que formamos. As nossas reuniões eram
muito vagas e, não querendo ser chato, fiquei incomodado com alguns membros sem
iniciativa ou que pareciam não querer estar ali e colaborar. Ainda por cima o
roteiro escolhido, embora fosse uma história bem curta e bonita, apresentava
alguns obstáculos como atores e locações e nada ficava decidido firmemente nas
reuniões. Devido a tudo isso e porque já me sentia frustrado, decidi abandonar
as aulas na segunda semana, não sem pesar. Porém, providencialmente, no mesmo
dia a maioria decidiu trocar o roteiro vencedor pelo meu, que foi todo pensado
para ser feito sem muitos recursos e com locações fáceis. Isso me tranquilizou
e me levou a continuar, não por eu ter sido escolhido, mas pela equipe ter
eliminado muitos entraves com essa atitude.
Percebi
que a alma da coisa está na equipe. Tudo anda se cada um carregar uma parte.
Não adianta ter um roteiro magnífico e bons equipamentos se não há
entrosamento, profissionalismo no grupo e, claro, vontade de fazer acontecer.
Mas críticas à parte, chegamos ao fim da terceira semana com a missão de
transformar algumas folhas de papel em imagem e som. A minha história se chama
“A folga” e fala sobre o tempo, como o aproveitamos e se realmente o
aproveitamos. Mostra um dia de descanso na vida de um cara que trabalha muito e
não vê a hora de fazer todas as coisas que planejou para o tempo livre, mas
acaba não fazendo nada a não ser dormir e ver TV. Requer apenas duas locações e
três atores que saíram do nosso próprio grupo.
Para
as cenas do escritório utilizamos uma das salas da Casa do Cinema. Como diretor
de arte fiquei responsável pelos objetos da cena, pelo cenário e pelo figurino
dos atores. As filmagens tiveram início às 15 horas e se estenderam até umas 19
horas. Já estava escuro e tivemos que fazer uma luz diurna. Esse dia foi muito
cansativo. Repetimos exaustivamente algumas cenas e, como eu também era o
continuísta, o cara que fica com a claquete, passei o dia pra lá e prá cá, a
cada mudança de posição da câmera, alterando os dados. Apesar do cansaço é
muito legal falar, por exemplo, “Cena 1, tomada 2, take 3” e bater a claquete
pro diretor comandar a ação.
No
segundo dia os trabalhos aconteceram no Educandos, na casa do diretor de
fotografia que, diga-se de passagem, tem uma vista do Rio Negro de dar inveja. A
cena toda era com o protagonista somente, o que facilitou bastante a
administração das tarefas. A fotografia esteve mais presente, assim como a
dificuldade de elaborar a luz do amanhecer e a luz noturna, bem no meio da
tarde manauara. Nosso ator, o Mário Cóvas (sim, ele tem nome de político), é
bem desenvolto e se mostrou muito à vontade na realização do papel, o que para
o diretor, deve ter sido agradável. A princípio ele seria o assistente de
direção, mas, sem dúvida, fez um ótimo trabalho diante das câmeras. Finalizamos
esse dia com sensação de alívio, o que me faz pensar que, nas produções, sejam
de TV ou de cinema, grandes ou pequenas, a sensação de quem faz, quando está
tudo pronto, provavelmente é de auto-realização e felicidade. Ainda não posso
afirmar ou negar isso, pois o curta está em processo de edição. Faço questão de
convidar os senhores para a exibição, assim que tivermos uma data definida.
Essa
foi uma experiência marcante, embora tudo tenha se dado no espaço tão curto de
três semanas. É uma alegria fazer parte e conhecer as pessoas que se dedicam a
esse trabalho em Manaus. Quero agradecer, especialmente, ao Bruno Morais e
Thiago Pereira, nossos mestres, pela generosidade em compartilhar o
conhecimento e nos trazer pra perto desse universo sedutor de “luz, câmera,
ação”.


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